quinta-feira, 19 de maio de 2011

Diálogo

Ontem tua voz anunciava a volta de um coração. Como a possibilidade me comove. Quase enxerguei a soltura do teu sorriso, a pressa dos teus olhos. As nossas palavras pedindo calma, cada tempo traz seus desígnios. É que por vezes nos falta paciência. Há dias nos quais a vida não está para diversões. Já nos dissemos isso. Mas a gente escapa dessa. Vontade de querer tudo. Esquece, crescemos. Cada erro pode ser fatal. Então anda devagar, aproveita a viagem. Expectativa é a gente que alimenta. Ah, eu não mudo. Entrega a cada coisa o tamanho que lhe convém, normalmente dá certo. Mas ainda tem essa esperança de teimosia, essa crença que virou nossa religião. Seria então tudo escolha? Sou tão senhora de mim? (Silêncio)... A gente está cada vez mais perto. Vá saber... Mas o que nos cabe é essa tentativa, a nossa não desistência, nosso descuido. Disfarça, mas fica a espera. A gente ainda vive. E estamos cada vez mais perto. Passos a gente dá sempre, todo dia, e cada repouso da lua é como o nosso. Então por hoje descansa, que temos muito a nascer.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

mundo

Ouvi dizer que o amor não vem pronto, que reconhecê-lo na multidão não passa de um eco de contos de fada que ouvimos na infância. Há quem discorde. E quem confirme. Escutei que o amor é um sol de cada vez, e que toda tarde adormece numa cama de nuvens quentinha. Falaram que tem amor que chega desesperado, assustando, vestindo o prenúncio de algo grandioso, se romance ou drama, depende de quem sente. Paciência. Já me rezaram que amor nem existe. Um dia juraram eternidade, e... bem, foi melhor para os dois. Ainda lembro de sussurros tatuados nos olhos que, confesso, disse sim. Escreveram que amor tem começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem. Não duvidei. Pode trazer alívio ou levar nossa paz. Que amor é verdade, repouso. Invenção. Cuidado. Liberdade. Limite. Pensava o quê? Pode ser presença de um deus, descuido, poesia. Amor pode ser desembestado, uma morte. Renovação. Profético. Risco. Querência. Disposição, desprendimento. Ternura, força. Não sabe as horas e não usa calendário: diz que tem mais a viver. Às vezes fica, outras nem chega, ou vai manso e quando se percebe é ele acenando de longe (já vi indo embora sem ao menos olhar pra trás). Ditaram que amor não é pra qualquer um. Resiliência. Que é ousadia, silêncio, promessa, bagunça. Rotina. Desejo. Gargalhada e... Parece que é um mundo de tanta coisa...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

retrato

ela gosta de flores. nunca fez um jardim. é capaz de ouvir silêncios, mas é quase surda. acha a vida boa. é quase feliz. tem segredos. ainda decifra nuvens. às vezes é quase doce. gosta de uma boa conversa. de banho de chuva. jura ser a alegria uma acrobata. acredita que ternura é força, mas fraqueja. beija e abraça. se lança profecias. sempre erra. ela não muda. tem um coração distante e outro que ainda bate fraquinho. ela sabe bordar. escuta estrelas. presta atenção em conversa de passarinho. gosta de lua. tem um vizinho flautista. obsessões. queria tocar gaita. decora músicas e poesias. canta pra si mesma. escreve cartas. ela tem uma oração diária. já morreu por vezes. tem saudades. e alívios. ama aos montes. mas no coração dela não cabe todo mundo. está se preparando para um grande dia e dentro dela se ouve gritos de vida.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

silêncios

Teu silêncio é delicado

Passos mudos, gentis

Nele te cumprimento

Dou abraços

Beijo-te o rosto

Ofereço, se quiseres,

Minha melhor companhia

No teu silêncio faço festa

Tem circo, algodão doce e

Pipa de toda cor

Mas em silêncio vivo

Também indeciso

Se fico ou passo

Se dou dois passos a ti

Fico igual

Escrevo uma poesia

Aceito o que me cabe

E na quietude

Acolho, devagarinho

Os silêncios teus,

repousados no chão